Um paciente me enviou uma reportagem do Jornal da Record com uma notícia que muita gente com dor nas articulações recebeu com esperança: o Conselho Federal de Medicina (CFM) passou a permitir o uso do PRP, o plasma rico em plaquetas. Comentei a reportagem em vídeo, e aqui explico com calma o que mudou, para quem esse tratamento está indicado e, principalmente, o que ele não faz.
O que o CFM decidiu
O PRP não é novo. Desde 2015, uma resolução do CFM considerava experimental o seu uso em doenças dos músculos, ossos e articulações: ele só podia ser feito dentro de pesquisas clínicas.
Em 2 de julho de 2026, o CFM aprovou a Resolução nº 2.464, publicada no Diário Oficial da União em 15 de julho. Ela revogou a regra antiga e regulamentou o PRP como tratamento complementar em quatro condições:
- osteoartrite (artrose) do joelho;
- discopatia lombar, que são as alterações dos discos da coluna lombar;
- epicondilite lateral do cotovelo, conhecida como "cotovelo de tenista";
- reparo do menisco.
Segundo o próprio CFM, entre essas indicações a artrose do joelho é a que reúne as evidências científicas mais consistentes, sobretudo nos casos leves a moderados.
O que é o PRP
O PRP é feito com o sangue do próprio paciente. Por isso se diz que ele é autólogo: não vem de doador nem de outra fonte. A resolução proíbe acrescentar ao PRP medicamentos, células ou outras substâncias.
Na reportagem, o procedimento aparece em três etapas:
- Coleta: é feita uma coleta de sangue do próprio paciente.
- Centrifugação: o sangue vai para uma centrífuga, que separa as suas partes e concentra as plaquetas. É desse processo que surge o PRP.
- Aplicação: o PRP é aplicado na região a ser tratada, de forma parecida com uma infiltração. Em estruturas mais profundas, a aplicação deve ser feita, de preferência, com orientação por imagem, como o ultrassom.
Como o PRP age na dor
O PRP ajuda a melhorar o ambiente inflamatório no local onde a pessoa sente dor e favorece o processo de reparo das células. O objetivo é ajudar a reduzir a dor e a melhorar a função, como parte de um plano de tratamento que também inclui reabilitação e acompanhamento médico.
O que o PRP não faz
A mesma resolução deixa claro o que não se pode prometer:
- o PRP não é promessa de cura nem garantia de resultado;
- não substitui uma cirurgia que esteja indicada;
- não dispensa o tratamento clínico, a fisioterapia e os exercícios;
- não é feito quando há infecção no local, tumor em atividade ou alguns problemas de coagulação e de plaquetas.
Como todo procedimento invasivo, ele tem riscos, mesmo sendo feito com o próprio sangue: dor e inchaço no local, hematoma, sangramento, infecção e piora passageira dos sintomas. Também pode não funcionar para todos. Por isso, antes da aplicação, o paciente recebe essas explicações e assina um termo de consentimento.
Para quem o PRP pode ser indicado
Ter dor no joelho ou na lombar não significa, por si só, que o PRP seja a melhor opção. A indicação depende de:
- um diagnóstico definido, com exames quando necessários;
- uma avaliação individual, que descarte as contraindicações;
- objetivos de tratamento combinados entre médico e paciente.
Na coluna lombar, as regras são mais rígidas. O procedimento precisa ser feito em hospital-dia ou hospital, com orientação por imagem, por médico com especialidade registrada (RQE) em ortopedia e traumatologia, anestesiologia, neurocirurgia, radiologia intervencionista ou medicina da dor.
A medicina regenerativa vai além do PRP
O PRP faz parte de um campo maior, a medicina regenerativa, que estuda os chamados ortobiológicos: produtos obtidos do próprio paciente, como o sangue, o aspirado de medula óssea ou a gordura. A resolução de 2026 trata apenas do PRP. Os produtos derivados da medula óssea e da gordura têm regras próprias e não se confundem com ele.
Sobre a reportagem
A matéria do Jornal da Record mostra o relato de um paciente com artrose no joelho e as etapas do procedimento. A experiência de uma pessoa não serve de previsão para outra: a resposta ao PRP varia de caso para caso.
Quer saber se o PRP faz sentido para você?
Na clínica, o PRP é um dos tratamentos que usamos para ajudar as pessoas a melhorar a dor, sempre depois de uma avaliação. Se você convive com dor no joelho, na lombar ou no cotovelo, o primeiro passo é entender a causa. Agende sua avaliação.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.
Dr. Leonardo Catizani, médico · Ortopedia e Traumatologia · CRM-MG 52855 · RQE 31715
Referências e fontes
- Resolução CFM nº 2.464, de 2 de julho de 2026 (texto integral, PDF). Publicada no Diário Oficial da União em 15/07/2026.
- CFM regulamenta uso de plasma rico em plaquetas para tratamento de condições osteomusculares específicas (notícia do CFM).
- Resolução CFM nº 2.128/2015 (revogada), que classificava como experimental o uso do PRP em doenças musculoesqueléticas.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nota Técnica nº 29/2024, citada pela resolução para o processamento do PRP.
- Jornal da Record (Record TV). Reportagem sobre a regulamentação do PRP pelo CFM. Imagem de capa: reprodução/Jornal da Record.